O Diabinho na garrafa

Minha avó foi quem inspirou este conto. Durante meus anos de infância, Dona Tereza (que também virou personagem aqui) sempre dava detalhes de como se conseguia um capeta de estimação. Não me pergunte como ela sabia de tais coisas. Ao pesquisar mais sobre o assunto, descobri o Diabo na garrafa ser famoso no folclore brasileiro sendo personagem de livros e até de novelas. Abaixo, você encontra mais detalhes sobre esta curiosa lenda.


Adelino pressionou os braços contra o corpo. Com cuidado! O ovo estava embaixo do sovaco esquerdo. Foi Dona Tereza quem lhe disse, ir até a encruzilhada com o ovo debaixo do braço à meia noite — o ovo saído do fiofó do galo. 

Foi uma sorte na verdade. A bolinha branca rolou da traseira do bicho bem na frente de Adelino, parecendo bola de ping-pong. Não deu tempo nem de João ver, muito menos Seu Pereira. Aquele lá, se soubesse que um galo da granja botou um ovo ia logo ficar com ele, não ia ter sobrado nem o cheiro de enxofre fedendo do negócio. Mas Adelino foi mais esperto, pegou o ovo e enfiou no bolso, quietinho, sem falar nada pra ninguém. No final do dia foi até o bar, tomou um corote de pinga enquanto perguntava alguns detalhes, assim como quem não quer nada, pra dona atrás do balcão. Dona Tereza entendia dessas coisas, como o Diabinho da garrafa nascia. Ela explicou, exatamente como ele fazia agora, de pé bem no meio da rua.

Em volta, não se ouvia nem miado chiando de gato. A única aparição era o poste ardendo um fogaréu prateado no asfalto. Ele levou o pulso até os olhos, a faísca do ponteiro beirava o número doze, o que acontece agora? Na verdade nada, a ideia era só estar na encruzilhada com o ovo debaixo do braço, à meia noite. Depois de quarenta dias choca um Diabinho, aí o cabra tem de ser bem valente e colocar o Satanás dentro de uma garrafa, lacrar a tampa e aprisionar o Belzebu pra ficar junto dele, lhe dar todas as riquezas dessa Terra até o fim da vida. E depois? Depois ele morre, a alma vai pro inferno de mãos dadas com o Capeta, danação eterna, ouviu dizer — disso aí Dona Tereza não entendia não. Será que dá pra sentir dor sem corpo? A dona foi trocar umas moedas com outro capiau e não respondeu. Adelino ficou com a impressão de que alma não dói, mas lembrou de Juliana lhe dando uns arrepios na barriga só de olhar. Ah, mas aquilo não era dor. Quem sabe com ele rico, Juliana não lhe dava uma atenção, um sorrisinho só. 

Amor, coisa tão ruim que nem o Diabinho da garrafa podia garantir.

Ao longe, Adelino percebeu dois faróis se alargando, luzes que cavalgavam acima de um motor rugindo — merda! Tinha carro vindo, mas Dona Tereza não falou pra ficar bem no meio da rua? Só mais alguns segundos até a meia noite, talvez o motorista visse alguém ali — moço, não dá pra esperar? Devagar, olha, depois de quarenta dias eu fico rico! Mas parecia não haver trégua, os fachos cintilantes buscavam, crescendo, sendo impulsionados por um brado cada vez mais alto. O som rasgado dos freios veio em um golpe e Adelino pode apenas fechar os olhos antes da batida.


Inferno! Aconteceu de novo? Ele precisava mandar checar os freios desse carro. Parecia até que o mecânico era o próprio Capeta! O Diabo ergueu os lábios, rindo consigo mesmo. Com o andar confiante, saiu do carro em direção o corpo estirado no asfalto. O corte do terno lhe rendia uma elegância natural, o tecido escuro realçando a tintura vermelha da pele. Passou os olhos no homem caído, o sangue ainda pulsava por suas veias, mas logo não seria mais. Não é que o indivíduo tinha um ovo de galo debaixo do braço? E ele, o próprio Endiabrado estava ali pra dar a semente de Lúcifer, fecundar o ovo, fazer o acordo — se ao menos o filho de Deus tivesse esperado na calçada. Era mais seguro, esses dias qualquer louco pode pegar no volante. O Diabo puxou o ar em um suspiro, realmente uma pena.

Voltando ao carro, o Belzebu iniciou o caminho de volta até o inferno, seria uma viagem longa, mas ele iria apreciando uma música pelo trajeto. Beethoven, seu preferido. Aumentou o volume e acelerou, as notas do piano disfarçando os gritos de socorro vindos da alma de Adelino, estrebuchando no porta-malas.

Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

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