Norato Boiúna

Conhecido no folclore amazônico, a personagem de Cobra Norato, Cobra Grande ou Boiúna se faz em uma das mais ricas lendas brasileiras. Inspirou o poema de Raul Bopp, Cobra Norato, aclamado desde sua publicação em 1931. Achei tão curiosa a lenda do Boiuna que decidi fazer um conto. Quero deixar claro que minha intenção não era reproduzir suas inúmeras variantes, período histórico ou regionalismos de linguagem. Apenas, passar adiante o mito desta personagem folclórica. 


Norato fechou os olhos. Seus sentidos humanos sendo envolvidos por um sopro azul, um eco de luar penetrando pelas camadas de sua pele e fazendo vibrar centelhas de magia por cada uma de suas células. A música serpenteava ao longe, lampejos vindo junto do aroma da mata, a escuridão quase palpável caindo sobre as árvores — apenas uma impressão da realidade deixada para trás. A única coisa contendo matéria sólida naquele momento, era corpo de Laura contra o seu. O toque leitoso descendo por sua nuca, os lábios trancados nos dele saciando uma sede que jamais poderia ser de água. 

Água, Norato não queria nem pensar. Em algumas horas seria obrigado a retomar sua existência de cobra, seu belo corpo de homem reduzido a um tenebroso réptil nas profundezas do rio. Filho de Boiúna, Norato era condenado a viver dia após dia como um monstro, um horrendo ser de escamas se embrenhando pela corrente. 

Se ao menos seu pai houvesse ficado longe de sua mãe. Mas ao mesmo tempo, Norato poderia culpá-lo? Não foi também em forma de réptil que colocou os olhos em Laura se banhando no rio alguns meses antes?

Comparado ao seu pai, Norato tinha mesmo é sorte. Ele possuía a habilidade de se transformar em ser humano e quando a lua beliscou o céu, se aproximou da beleza agora em seus braços em forma de homem. Tudo que seu velho pai pôde fazer quando viu sua mãe, foi mandar as sementes de cobra na água mesmo. A mãe nem ao menos percebeu enquanto ele e a irmã faziam morada dentro dela. Quando nasceram, em pele de serpente, a mulher não teve outra escolha a não ser devolvê-los ao rio. Mas devido a uma feitiçaria, a cobra se tornava um ser humano durante a noite, por apenas algumas horas — era melhor aproveitar.

Suas mãos mamíferas moveram-se pela cintura de Laura, os dedos pressionando sua pele, o calor vindo em ondas e intensificando enquanto era tragado por sua boca, pela fome que ela também tinha dele, mas em um movimento repentino, a jovem se desvencilhou abandonando seus lábios no vazio.  

“Você sabe Norato”, disse ela dando alguns passos para trás. “Sou moça direita, se quiser me conhecer de verdade… só casando.”

“É claro que quero me casar com você, Laura”, respondeu se aproximando. “Mas eu já lhe disse, em algumas horas viro cobra, como posso ser seu marido se durante o dia moro na água?”

A jovem quebrou uma das sobrancelhas o encarando.  “Minha mãe acha que essa história é bobagem, que você é o próprio Boto querendo me enganar. Mas deixa eu lhe dizer uma coisa” ergueu o dedo no ar “não sou mulher pra ficar carregando filho de Boto não!”

“E eu lá sou Boto Laura? Sou Boiúna! Tá confundindo cobra com golfinho é?!” Jogou os braços pra cima. “Era só o que me faltava! Boto! Toda a vila me conhece, eu não fico pedindo pelamordedeus pra alguém quebrar o feitiço do Boiúna? Mas eles tem medo do meu tamanho de cobra. Eu garanto que não vou fazer nada de mal, mas quando colocam os olhos em mim em forma de cascavel, não resta nem a sombra do indivíduo!”

Laura cruzou os braços levantando o queixo. “Bem, então trate de arrumar alguém corajoso”, respondeu lhe dando as costas e em um minuto desaparecia por entre as árvores.

Norato a seguiu em silêncio. Apenas o som de seus passos lhe guiando pela escuridão. Ele não iria discutir, Laura tinha razão. E se eles fossem até os finalmentes e ela desse luz a uma cobra?! Deus me livre! Não foi por isso que, durante todos estes anos, ficou bem longe das moças da vila? Mas com Laura era diferente, ela era como a pororoca quebrando dentro dele, o próprio Boiúna em chamas fibrilando por suas veias. Ela era toda sua vontade de ser gente em um só rosto, um só olhar. Mas e depois? Se eles agissem em todos esses quereres, condenar seu filho a uma vida dentro do Tocantins? E pior, e se essa cria fosse igual Maria Caninana? 

A irmã era diferente dele. Apesar de terem sido criados juntos, ela puxou ao pai, gostava de fazer maldades. Norato tentava impedir, mas da última vez chegou tarde demais. Por brincadeira, Maria virou uma embarcação inteira, quarenta pessoas mortas e Norato não pode fazer nada. Foi tanta indignação nascendo em seu peito de sangue gelado que os dois acabaram tendo uma briga. Por onze dias o rio esteve em guerra, as ondas se elevando aos céus como se o firmamento rasgasse em tempestade, mas o furacão era dentro d’água. Ao final, Norato saiu vencedor. A irmã — morta. Seu corpo agigantado indo descansar no fundo do rio. Não era sua intenção, mas Norato também não se arrependia do feito. Era melhor assim, pelo menos a dor de se perder alguém, ficaria a partir de agora, apenas dentro dele.

Atingindo o pavilhão naquele momento, o casal se separou. Laura foi logo dançar ao som da sanfona e Norato tomou um lugar na mesa ao lado do Velho do Morro. O homem era conhecido nas redondezas, seus longos cabelos grisalhos caindo pelas costas como cascas de árvore, a pele enrugada onde mal se via os olhos. As pessoas o chamavam assim pois ninguém sabia seu nome. Diziam ser bruxo e Norato desconfia ser verdade, o homem aparecia e desaparecia quando bem entendia, e não foi ele quem lhe disse como quebrar o feitiço do Boiúna? Segundo o Velho era preciso que alguém fizesse uma ferida em sua cabeça na forma cobra e depois derramasse três gotas de leite de mulher em sua língua, assim, ele poderia viver para sempre como gente — ao lado de Laura. Se ao menos achasse alguém corajoso o suficiente, mas nem mesmo o Velho do Morro, que parecia conhecer todos os segredos do universo, queria saber de chegar perto do monstro. 

“O que lhe incomoda rapaz?” A voz do Velho rompeu, grande, quase como trovão competindo com a música. 

Norato suspirou envolvendo o copo de cerveja recém servido. “Laura. Ela quer casar, e eu… “

O Velho riu um riso oco.  “E você, precisa se livrar do feitiço do Boiúna.”

Norato concordou com a cabeça, os lábios bebericando a espuma da cerveja, o líquido efervescente acariciando sua boca em uma brisa. 

“Sabe, tenho a impressão que sua sorte está pra mudar”, disse o Velho apontando um grupo de homens conversando do outro lado do salão. “Ouvi dizer que chegou um soldado na cidade, viu muita coisa nessa vida, acho que não tem medo de cobra não.”

Norato seguiu o dedo do Velho e ali, de pé, junto dos rostos conhecidos, se destacava um homem em uma espécie de uniforme, um tipo de roupa como Norato nunca tinha visto antes. Nem o homem ele havia visto antes, porte maciço, alto, ombros largos. Soldado, o Velho do Morro disse? A cobra em pele de gente estreitou os olhos — interessante. 

Sem perder tempo, o jovem deu mais um gole na cerveja e se levantou. Aproximando-se do grupo, Norato foi apresentado ao homem e por algum tempo ficou na espreita, jogando conversa fora, como quem não quer nada, até quando por um breve momento, os outros se distanciaram e eles foram deixados a sós. 

“Então”, começou Norato. “Soldado hein? Aposto que deve ter enfrentado muita coisa que deixa a maioria dos homens de cabelo em pé.”  

“Coisa tão horrenda que se eu lhe contasse você não acreditaria”, respondeu o militante sem realmente olhar para ele, as órbitas se perdendo em algum lugar do pavilhão.

Um véu dourado envolvia o espaço, a fragrância vinda dos corpos fazia cirandas no ar e a música inundava, as notas inflando entre tom e semitom na movimentação de pessoas.

“É mesmo?”, disse Norato buscando sua atenção. “Ah, mas tem coisa aqui nas redondezas que eu aposto que você nunca viu. O rio prega peças nas pessoas”, comentou erguendo as sobrancelhas. “Dizem ter vida própria.

“Ha! Não tem nada que me impressiona não moço, já enfrentei até chupacabra!”

“Chupacabra é? Bicho grande.” Norato concordou com a cabeça. “E cobra, já deu de cara com alguma?”

“Cobra?”, respondeu o outro cruzando os braços acima do peito e inflando os pulmões. “Pff, cobra é bichinho pequeno.”

“Ah, mas tem uma cobra ali no rio tão grande que nenhum homem chega nem perto. Uma serpente, ouvi dizer, fazendo chupacabra parecer cãozinho de madame.”

Lentamente, o soldado virou o pescoço encontrando os olhos de Norato, suas sobrancelhas se juntando e o outro sorriu, sabendo ter conquistado sua atenção. 

O par se ausentou da festa e enquanto caminhavam, Norato contou tudo ao novo amigo. Sobre seu nascimento, ser jogado no rio, a irmã Maria Caninana e também sobre o feitiço o aprisionando em forma de cobra. O soldado ouvia com olhos parecendo faiscar dentro das cavidades, duas chamas ardendo como a própria eletricidade iluminando o caminho. Terminado o relato, o homem se ofereceu para colocar um fim na prisão de escamas de Norato. 

“Amanhã, ao cair da noite”, prometeu o soldado. 

Exultante, o rapaz nem ao menos se despediu da namorada. Queria surpreendê-la em sua primeira manhã como gente e ao deixar o homem, transformou-se em cobra, desaparecendo na madrugada. 

Quando o sol furou o horizonte, o Boiúna fez uma última viagem pelas águas. Foi aos confins da entidade líquida, nos intestinos de sua morada cristalina. Nadou até cavernas e passagens somente conhecidas por ele, flanou pela correnteza pregando peças nos peixes, quicando bola com caranguejo, assustando o Boto e rindo enquanto o covarde corria. Norato foi até onde os ossos da irmã descansavam, as profundezas do tanque haviam se tornado seu túmulo e uma certeza despertando dentro de si: seu fim não seria como o dela. Ele morreria um dia sim, mas em terra firme. 

A noite se apressou e ali nas bordas do ribeirão, Norato viu o soldado com a roupa fardada. O homem não havia mentido, iria mesmo enfrentar o Boiúna. Erguia-se diante das águas com o peito inflado, desafiante como se nada tocasse sua alma e a cascavel não pode deixar de se perguntar, quem era aquele homem? O homem que por uma mera aventura, se colocava a enfrentar o maior animal das redondezas? Seria ele tão superior em nobreza e habilidade diante dos outros, ou apenas buscava a morte onde pudesse encontrar?

Não importava. Naquela noite, Norato deixaria seu reino liquido para trás. 

O réptil se aproximou. Apenas os olhos perfurando a superfície da água, a luminosidade da noite fazendo o rio bruxulear enquanto pequenas ondas riscavam a tensão. O soldado o percebeu chegando, os dois trocaram um olhar e Norato então mostrou sua magnitude de serpente.

O Boiúna rompeu a noite parecendo atingir as estrelas, uma torre ondulando na escuridão. As escamas tremeluziam em milhares de colmeias, os pequenos pontos cintilando como os próprios astros alfinetando o colo enegrecido do céu. Norato observou o homem de cima, um pingo no chão, uma formiga, mas o soldado nem ao menos piscou, seus membros ainda se erguendo rígidos, o queixo seguindo o rosto da cobra, lhe encarando com nenhum temor dentro de si.

Norato dobrou-se novamente, um obelisco se fechando em andares e aterrissou com cabeça bem ao lado do soldado. As pálpebras se juntaram, duas luas amarelas se apagando e a serpente esperou pelo golpe. A pancada veio, bem no meio da testa como instruído e em seguida o sangue jorrou pela carcaça gelada. Imediatamente, o Boiúna abriu a boca em uma gruta, uma gigantesca abertura onde uma pessoa distraída poderia entrar e caminhar até seu estomago sem se dar conta. O soldado despencou o líquido doce em sua língua, três gotas de leite de mulher, e se afastou. 

Norato percebeu um certo vibrar dançando por seu corpo, um ressoar sagrado transformando cada fagulha dentro de si. A mesma harmonia pairando pelo universo, dando energia a todas as coisas, agora crescendo e se tornando sua única realidade. Era a liberdade, o desejo, a coragem dentro dele tomando forma — forma de gente. 

Quando abriu os olhos novamente, se deparou com o soldado lhe encarando de cima, o rosto enrugado em dúvida junto de lábios se abrindo em admiração. Norato sorriu em resposta. Estava feito! Ele finalmente era um homem.

Colocando-se de pé, o ex-Boiúna se jogou nos braços do herói, agradecendo profusamente e lhe prometendo todas as riquezas do rio. Ele jamais poderia retribuir, mas se houvesse algo, qualquer coisa, Norato atenderia sem pensar duas vezes. O homem concordou com a cabeça, dizendo que não foi nada e o aconselhou a se vestir antes de sair dando abraços de Boiúna nos outros. Com o constrangimento lhe subindo pelas bochechas, Norato buscou pelas vestimentas guardadas atrás de uma árvore, mas o soldado não se demorou. Como quem apenas está ali para cumprir um papel, o amigo se despediu e seguiu seu caminho.

Norato não deixou margens de sua antiga morada até a escuridão se transformar em manhã e com olhos famintos, assistiu enquanto o céu ferventava em nuances de roxo. A palidez prateada da noite lentamente foi deixada para trás e o dia se aproximava, ampliando em futuro, em amanhã. O ar se tornava cada vez mais gelado e vinha junto de uma frescura molhada, como se o rio se elevasse e cedesse suas gotas ao infinito. Logo, assim como uma joia há muito perdida nas profundezas do Xingu, o astro amarelo coroava o horizonte. 

Os raios brincavam por seu corpo, amorosos ao banhar suas mãos, ouro sendo derramado em forma de luz, não só nele, mas por toda parte. Expandia acima do rio, se aprofundava na densidade da mata, acalorava o céu. Ele havia visto o amanhecer antes, mas apenas em forma de cobra, nunca em uma pele seca. Naquele instante, Norato nascia para humanidade e agradeceu em silêncio a vida correndo por suas veias, o sangue morno, o pulmão tragando o oxigênio e o coração batendo no interior de seu tórax. 

Na calmaria de seu ser, fez caminho até a casa onde Laura morava com a mãe e concluindo que a beleza ainda dormia, se colocou pela janela do quarto como uma serpente, se embrenhando pelos lençóis e se esticando bem ao lado dela. 

Vagarosamente, Laura abriu os olhos e elevou os lábios em um sorriso sonolento ao se deparar com ele. “Eu estava sonhando”, disse colocando a mão em seu rosto. “Você não era mais Boiúna, vinha correndo me contar. Nós íamos passar nossa vida toda juntos.” Fechou novamente as pálpebras entre um suspiro. “Só em sonho mesmo. “

“Bem”, respondeu Norato sussurrando e se aproximando mais, os dedos se aconchegando na curva de sua cintura. “Para passarmos a vida toda juntos, só falta uma coisa.”

Lá fora, uma inundação de pássaros cantarolava e Norato pensou ser um pequeno exército de coisas doces. 

“O quê? Quebrar o feitiço?” Laura respondeu ainda sem abrir os olhos. 

“Não. Falta só você se casar comigo.”


Laura e Norato se casaram e viveram uma longa vida juntos. Seus filhos tinham duas pernas e ficavam na beirada do rio só por diversão. Quando ambos eram bem velhos, Laura se foi primeiro, mas não demorou para Norato dar um último suspiro. Deitado em uma cama confortável e seca, o homem que um dia foi Boiúna, fechou os olhos cercado por aqueles que amava.


*As personagens de Laura e do Velho do Morro são criações minhas, pensadas no intuito de uma melhor narrativa.

Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

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