O retorno do menestrel

Esse conto é inspirado na lenda de medieval celta de Tristão e Isolda. O foco é no episódio em que Tristão (no conto Tristan) matou o dragão assolando a costa irlandesa para ganhar a mão de Isolda (Isolde) para seu tio, rei Mark. Para quem não conhece a lenda, este relato fica logo no começo, antes da rainha e do cavaleiro se tornarem amantes.


— Eu sou Tristan de Lyonesse! — A voz se ergueu dentro do elmo enquanto girava a espada no ar. 

Não que o dragão reconhecesse o nome, ou ao menos se importasse com o fato dele ser o melhor cavaleiro da Cornualha. Na verdade, o monstro via apenas uma mancha prateada refletindo no chão, longe, bem longe dele. Talvez nem mesmo enxergasse um homem ali, uma pena — para o dragão é claro, não identificar o bravo cavaleiro prestes a tirar sua vida. 

Seria difícil acabar com um dragão, ele sabia, mas Tristan de Lyonesse havia derrotado Morholt meses antes, e não clamavam o cavaleiro irlandês ser praticamente um gigante? Dragões e gigantes eram classificados na mesma categoria, certo? Criaturas mágicas da Europa medieval, um embolado só.  

Morholt, o quase gigante, chegou na Cornualha cobrando um antigo tributo em nome do rei irlandês. Trinta jovens a serem doados como escravos — a não ser que, o brutamontes disse erguendo o queixo ao cruzar os braços rochosos acima do peito, alguém o enfrentasse em batalha. É claro que Tristan se ofereceu, primeiro de tudo, quem era esse cara? Chegando em seu país e exigindo pagamento? Além disso o amado país era praticamente um asilo, Tristan estava entediado, já não aguentava mais brincar de espada com seu fiel escudeiro, Gouvernal, e como todo jovem cavaleiro, ansiava por uma aventura. 

Ele lutou e ganhou. Mas durante a batalha Tristan foi ferido pela lâmina envenenada do adversário e quase teve um final parecido com o dele. Não se achava cura para o veneno e em um ultimo fio de esperança, ele teve a ideia de navegar até margens irlandesas disfarçado de menestrel — Tantris foi o nome dado à rainha enquanto ela administrava o antídoto. E Tantris passou uma bela temporada na Irlanda, gostaram tanto dele que sugeriram sua permanência na corte — harpa na mão, cantarolando lais. Na verdade, foi tentador. Eles lhe tratavam bem ali, melhor que os barões ingratos na Cornualha. Mas ele era um cavaleiro, não poderia simplesmente passar a vida sob um nome falso, temendo ser descoberto enquanto interpretava canções e se perdia nos olhos da princesa. 

Isolde. 

Não era por ela a aventura mais uma vez em território inimigo? Para matar o dragão assolando o reino há anos, e quem conquistasse a façanha — ele soube durante a temporada como menestrel — ganharia a mão da princesa em casamento. 

Tristan colou os dentes junto ao crânio expulsando o ar de suas narinas. A recompensa não era para si, o casamento seria arranjado para o rei, seu tio Mark.

Foi tudo culpa de Andred. Maldito Andred! Seu primo, sangue de seu sangue, dizendo como Tristan era uma especie de bruxo pois havia saido da Cornualha praticamente morto após a batalha com Morholt e retornou completamente curado. Mark queria deixar o reino para Tristan, seu pobre tio, argumentando contra aquela cobra se arrastando pelos corredores de Tintagel. Mas não houve argumento quando Andred sugeriu que Mark se casasse com Isolda. Tristan não falava taaanto da beleza e inteligência da princesa? Pois se Mark e Isolda se casassem, Andred discursou erguendo o queixo, o casamento traria paz entre Cornualha e Irlanda. O rei imediatamente concordou, Tristan enaltecia tanto Isolda que o tio disse que não se casaria com ninguém além dela. 

Só Andred notou o pesar no rosto de Tristan, o sangue subindo por suas bochechas, talvez até sentisse o gosto amargo se alastrando por sua boca no momento em que concordou na busca da mão da princesa para seu tio. Andred notou e com um elevar escárnio de sobrancelhas, pareceu satisfeito consigo mesmo. 

A sugestão do primo nos traz ao momento presente. O dragão serpenteando diante de Tristan, o bafo de fogo o fazendo assar dentro da armadura — ei, não chegue muito perto com essas labaredas, pode estragar a roupa. Céus, a lei da cavalaria não se aplica a dragões? Ele rolou os olhos dentro do capacete. Hora de acabar com a fera.

Foi bem rápido na verdade. Tristan se escondeu em uma vala e quando a besta se aproximou, furou sua barriga com a espada. A pele escamosa rasgou enquanto forçava a lâmina para baixo e diversas coisas que podem ser apenas nomeadas como gosmentas, saíram de dentro do bicho. A criatura gritou, as guelras se armaram como toldos ao lado da cabeça e então caiu mole. Só o pescoço era a própria Jormungand, a mitológica serpente nórdica, agora sem vida diante de seus pés. 

Ok, dragão morto, missão cumprida. Mas e agora? Como provar ao rei irlandês ser ele quem acabou com a ameaça? A cabeça da besta era enorme, seu cavalo não iria dar conta. Se abandonado ali, qualquer um poderia clamar o feito, quando na verdade havia sido ele. Ele! Tristan quem matou o dragão, a mão de Isolde era dele! 

Para, engoliu, levar ao seu tio Mark, é claro.

Tirando o elmo, o cavaleiro apreciou o ar gelado lhe banhando a pele e levou a mão aos cabelos, coçando a cabeça. O que fazer? O que fazer? A-ha! Ergueu um dedo no ar. Ele tiraria sua língua! Nada mais justo depois do monstro ter dançado aquela coisa na sua cara por tanto tempo. 

Tristan arreganhou a boca do dragão e tirou a prova com a espada. O órgão era meio esquisito — viscoso, mole, ainda palpitando entre seus dedos. Será que iria ter de balançar o treco pelo caminho até a corte? Ah! Já sei, pensou ele. Colocaria a língua do dragão junto de sua coxa, era do mesmo tamanho e assim, defendido pela armadura, o comprovante seria preservado. Não estava cheio de ideias magníficas naquele dia? 

Ok, dragão morto, língua segura. Ele suspirou jogando os ombros para baixo — hora de clamar sua recompensa. 

Iniciou o caminho em direção ao cavalo quando notou algo de errado. Era suor quebrando de sua testa no meio do outono? Deuses, não se lembrava ser tão quente no litoral da Irlanda. E seus quadris, queimando em uma tocha, a virilha pulsando em chamas — e não da maneira boa. Era como se, como se, tivesse a língua de um dragão nas ceroulas?! 

Seus olhos se arregalaram ao perceber o erro, as mãos imediatamente buscando deslocar a placa de metal, mas em seu atropelamento, parecia estar emperrada. Buscando em volta, avistou um lago e juntando suas últimas forças, foi em direção à água.


Era noite quando Tristan abriu novamente as pálpebras. O ardor de uma vela tremeluzia dourada pelo cômodo. Notou a cama embaixo de si, e acima, reconheceu o rosto há muito gravado em sua mente.  

Isolde. 

— Você tinha a língua de um dragão nas ceroulas — disse ela curvando uma das sobrancelhas.

Tristan fechou novamente os olhos, um leve sorriso em seus lábios, a imagem da beleza lhe encarando em zombaria guardada junto de si. Logo ele renderia a mulher amada a um casamento arranjado com o rei. Isolde, em breve, Rainha da Cornualha. Naquele momento entretanto, para ela, ele ainda era Tantris, o menestrel ferido. E para ele, ela era Isolde, a princesa inundando os sonhos de um cavaleiro disfarçado de menestrel.


*nota: a lenda segue com Tristão levando Isolda para Cornualha a fim de se casar com seu tio. Durante a viagem eles bebem acidentalmente uma poção mágica do amor, destinada para Isolda e rei Mark e consumam a relação no navio. A paixão, mais tarde leva a morte trágica de ambos. 

Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

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