Larissa

Larissa é um conto feito para a antologia Condenados e que infelizmente, não foi selecionado. A editora preferiu outro conto meu, Conveniência, então decidi publicar Larissa aqui. O pano de fundo é uma apocalipse zumbi no Brasil, um vírus liberado acidentalmente pela USP que transforma cadáveres em zumbis. Larissa segue os pensamentos de uma garota transformada por este vírus e o que eu imaginei ser o restante de consciência no cérebro de um zumbi.


O dia rompia em uma cobertura de azul febril. Uma gruta de cintilância disparando raios ferventes sobre a cidade. O sol, uma bola incandescente alfinetada no firmamento, parecia não se mover há horas. Apenas inflava, gigantesco, monumental em sua cama celeste. Sob os pés da criatura, o asfalto derretia. Cera se agarrando aos passos bêbados, ou seriam os pés se agelatinando dentro dos sapatos? 

A avenida desenrolava em uma grande fita de concreto, um rio morto serpenteando entre os prédios, rígida, impenetrável. Os edifícios se erguiam em montanhas geométricas em volta, as pequenas janelas se repetindo em retângulos negros, mas não havia ninguém ali, a criatura sabia. Podia perceber o vazio se aproximando enquanto a fome rugia dentro de si — nada há quilômetros. 

Os últimos carros se foram semanas atrás. Até as pessoas mais duvidosas de toda a situação foram procurar lugares remotos. Diziam ser o isolamento mais seguro, quem pudesse se locomover para áreas menos povoadas teria mais chances de sobreviver. Ela sobrevivia, desde que a epidemia tomou conta, mordida após mordida, gole após gole. A mandíbula se fechava sobre a carne ainda viva, vibrante, a fragrância jorrada dentro de sua boca, e o gosto! Veludo. Tenro, doce, espesso. Caramelo circulando por sua língua em lampejos de prazer. 

Mas agora não restava nem mesmo um cachorro na rua. 

Nos noticiários, os especialistas repetiam como eles, as criaturas, não poderiam ser parados, seres imortais movidos pela ânsia de um gozo a ser saciado, invencíveis em sua fome. Mas e quando não sobrasse nada para alimentar este cadáver que restava dela? Ainda existia um ser por baixo de todo o desespero, o urro rompendo dos confins do seu eu? O apetite era tão grande que parecia se alargar em um rastro de ausência, a infinidade de um penhasco se aprofundando dentro dela. Mas em seu cérebro ainda intacto, havia uma outra coisa além de fome, uma única pergunta lhe incomodando há semanas. 

Um nome.

O mesmo nome gritado pelos pulmões de seu pai antes de abocanhá-lo, o mesmo nome chamado pela mãe enquanto se aproximava. Foi vingança, mágoa de seus pais que levou a devorá-los? Mas o que eles haviam feito, além de serem revestidos pela capa suculenta de veias e músculos? Não, não foi vingança, apenas fome. 

Mas qual era o nome invocado por eles?

O nome nos lábios de um alguém se aproximando e beijando seus, sorrindo para ela quando sua boca ainda não feria, não rosnava o mesmo ronco vindo de seu estômago. O que havia então? Antes desta neblina escarlate tomar conta de si? Ela não se lembrava realmente, mas existia uma impressão. Uma impressão de manhã, de um brilho azul, da frescura do raiar do dia. Não as labaredas impiedosas do sol lançadas sobre ela agora. Mas ela ao menos teve piedade? Teve pena dos gritos silenciados por seus dentes? Tantos pedidos, súplicas. Faria alguma diferença suplicar? Logo eles se transformaram também, um exército de seres movidos por apenas um hino, fome. Onde estavam eles agora?

Alguns foram tomados pela polícia, as armas estourando seu cérebro, os fragmentos do órgão estilhaçando pelo ar em um único tiro. Outros foram dominados pela resistência, pequenas guerrilhas de cidadãos com os fuzis da favela sendo passados de mão em mão. Haviam aqueles ainda levados até laboratórios com a promessa de uma cura. Onde estava ele agora? O sorriso, a manhã se fazendo entre a máquina de café e algumas barras de chocolate. Um beijo seguido do nome que se debatia, sendo afogado nas nesgas de sua mente.   

Arrastando os pés pelo asfalto, teve a impressão de seu corpo subitamente ficar mais leve e o som de algo atingindo o chão chegou aos seus ouvidos. Cessando o caminhar, ela girou o único olho ainda preservado dentro da cavidade e ali, caído no concreto percebeu um braço — seu braço. O membro endurecido e sem vida jogado sobre a pedra e naquele momento, seu único pensamento era se poderia comê-lo. Chutou levemente a parte separada de si com a ponta do tênis, tinha alguma gota de sangue ali? Não. Era apenas um pedaço de carne estéril, ressecado pela falta de um coração que batia e lhe veio à mente a realização — logo seria uma de suas pernas. E depois a outra. Ela se tornaria apenas uma boca, viva, ansiosa, sem jamais encontrar paz para seu tormento.


De repente, o cansaço despencou sobre seu ombro e pela primeira vez em semanas, decidiu se sentar. Forçando os ossos de seus joelhos em um estalo, fez com que o corpo fosse de encontro à sarjeta, o olho se fixando no braço recentemente caído, as moscas prontamente se alimentando dele — se alimentando dela. Por um instante, em meio ao oceano de concreto silencioso da avenida e a fome, ela desejou apenas por suspiro. Um pequeno alívio, um buscar pelo ar mesmo suas narinas não precisando do oxigênio. Uma pausa para a pergunta ainda ferventando em uma lembrança inoportuna, insistindo, sem poder ser respondida. 

Qual era seu nome?  

Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

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