A velha no bosque

A velha no boque é um conto de fadas dos irmãos Grimm que ao ler, achei muito interessante. Ele foge de alguns clichês e tem uma heroína extremamente sagaz. Como todo bom conto de fadas, diversos pontos ficam sem resposta, mas eu tentei dar algumas resoluções lógicas aos acontecimentos. Alguns elementos, entretanto, ainda ficam no ar e espero que compreendam que eu quis me manter o mais fiel possível ao conto original. Dito isso, tomei a liberdade de nomear a personagem principal, que aparece apenas como “garota”, de Adria.


Estavam todos mortos. O barão, a baronesa, o cocheiro e até mesmo os cavalos. Seus restos esquartejados se alastravam próximo à carruagem, o transporte caído em um canto da estrada, uma das rodas ainda em discreto movimento como se também desejasse fugir dali.  

Adria se aproximou, as pernas sendo obrigadas por sua mente febril a dar mais um passo, o estômago reduzido a uma pedra no fundo de suas próprias entranhas. Ela acompanhava os patrões em uma viagem até a um reino vizinho quando foram surpreendidos por bandidos. A servente ouviu o relinchar desesperado dos cavalos e tomada por um instinto desconhecido para si mesma até então, se colocou pela janela da carruagem e correu mata adentro. Entre a criadagem, sempre se ouvia histórias sobre ladrões se escondendo na estrada, espreitando por alguma comitiva passante para roubar. Mas esses não só roubaram, mas massacraram todos. Em algum momento, se lembrava ter ouvido a voz do baronesa suplicando, o grito do cocheiro clamando por piedade, mas não houve nenhuma. Tão rápido quanto surgiram, os bandidos desapareceram deixando apenas destruição.  

A garota ponderou suas possibilidades. Ela poderia seguir a pé pela estrada e tentar a sorte, talvez a trilha a levasse para algum vilarejo próximo, mas havia a chance de reencontrar os bandidos. Não, pensou juntando os dedos contra o tecido da saia, ela preferia desaparecer dentro da floresta. 

A mata era densa, os troncos das árvores se estendiam aos céus, intermináveis, mas as copas pareciam se curvar para baixo, a flora a observando em silêncio. O dia despencava em prata e as nuvens se aproximavam em uma neblina cada vez mais densa, mas ainda caminhando Adria não se deu conta da temperatura baixa. Percebia apenas fome tomando conta de si. Não se podia identificar nenhuma fruta ou erva, apenas tronco após tronco, espessos mastros cobertos por rugas grosseiras, o musgo tomando conta das pequenas frestas. Nenhum som perturbava os arredores além seus passos. Em volta dela a floresta segurava o ar, as árvores como se temendo serem descobertas enquanto observavam cada movimento seu. 

Após horas de caminhada, Adria atingiu uma clareira e decidiu se sentar. Não havia porque continuar, a mata era interminável e as chances de sair dali diminuíam a cada passo. Dobrando as pernas, relaxou as costas contra um tronco e fechou os olhos por um momento, era o final da tarde e logo não haveria mais luz. Talvez devesse buscar por alguns gravetos e tentar fazer fogo, agora a atmosfera cortante da noite que se aproximava fazia gelar sua pele. Mas ao abrir os olhos, Adria se deparou com algo que, devido ao silêncio, nem mesmo havia se dado conta de existir ali. Mas lá estava, bem à sua frente — uma pomba. 

Completamente branca, a ave a encarava do chão. Carregava em seu bico um item de metal, os pequenos olhos negros como a propria madrugada. O pássaro se aproximou deixando o pequeno objeto na palma de sua mão e Adria reconheceu a forma de uma chave. 

“Não tema querida dama”, disse a pomba levantando voo e pousando em uma árvore próxima. “Use a chave e aqui você encontrará o suficiente para satisfazer sua fome.”  

Era a exaustão criando vozes em sua mente? Pois, parecia aquela pomba ter falado com ela e pior, lhe chamado de dama. Olhando mais uma vez para a chave entre seus dedos, ela se perguntou o que a pomba — ou a voz em sua mente, queria dizer com aquilo. 

A garota se levantou escovando as folhas secas da saia com a mão, e observou a árvore onde o pássaro estava. Bem no centro do tronco, quase imperceptível devido ao musgo, havia um orifício em formato de fechadura. Adria colocou a chave ali, girou e ouviu um clique. Depois mais outro e o tronco se afrouxou em uma pequena porta. O interior se alargava em uma lacuna e como se materializado por mágica, ali estava um pedaço de pão e um copo de leite. 

Mas como poderia ser? Uma planta produzindo alimento, e mais, um copo de vidro cheio de leite? Ela buscou pelo item agarrando-o com ambas as mãos, como se para se certificar de sua existência — era real, bem real. O leite, concluiu ao tomar um gole, também era real, e virando o copo sobre os lábios no desespero da fome, tragou o líquido completamente. A farinha ainda quente do pão se desfez em deliciosas mordidas e o alimento desapareceu rapidamente de seus dedos, preenchendo seu estômago.

Ela fechou a abertura e trancou com a chave, agradecendo a árvore em um tímido “obrigada”, imaginando ser o correto a fazer.

A pomba, que havia desaparecido após Adria encontrar a refeição, retornou.

“Obrigada”, disse agora ao pássaro. “Não tenho mais fome.” Passou as mãos pelos braços, buscando aquecer a pele encoberta pelo fino tecido de algodão. “Se as árvores não se importarem, posso recolher alguns galhos caídos para uma fogueira?Tenho frio.”

Batendo suas asas pálidas mais uma vez, a ave se aproximou e deixou mais uma chave em sua mão. Sem dizer nada pousou em uma outra árvore.

Adria, já sabendo o que fazer com a segunda chave, foi até o próximo tronco. Esta porta era diferente, não uma pequena abertura, se deslocou em um grande painel e se assemelhava a porta de um armário. Para a maior surpresa da garota havia ali, pendurado em um cabide, um traje digno de uma rainha. Um vestido adamascado em seda azul escuro e no bordado, uma floresta dourada com pequenos pássaros entre os galhos. Nem mesmo a baronesa possuía vestes tão opulentas. Junto do vestido estava uma capa na mesma cor, o interior possuía uma espessa camada de pelagem alva, branca como a própria pomba e bordados também se desenhavam na barra. Embaixo, botas em um couro maleável, muito mais confortáveis do que as protegendo seus pés naquele momento. 

Ainda boquiaberta Adria se dirigiu a pomba. “Eu sou apenas uma serva. Essas roupas”, titubeou o pescoço “não posso me vestir assim.”

“Dama”, respondeu a ave. “Agora você é a princesa desta floresta. Eu e as árvores somos seus súditos.” O pássaro abriu as asas e abaixou a pequena cabeça em um comprimento. 

Adria não sabia se a qualquer momento iria acordar de um sonho — ela não era princesa de coisa nenhuma, mas também não se encontravam pombas falantes todos os dias. Logo se livrou de suas antigas vestes e se cobriu com as novas. O manto caia pesado sobre seus ombros, as botas de couro lhe davam alguns centímetros de altura e ao se encarar no espelho pendurado na porta da árvore — sim, havia um espelho — Adria sorriu. Ela nunca pensou ser bela, mas agora, vestindo aquelas roupas e com o pão em sua barriga esquentando suas bochechas, até passaria por uma princesa.  

Nem mesmo a garota havia trancado sua árvore-armário, a pomba lhe deu mais uma chave. 

“Uma princesa deve ter seus próprios aposentos.” A ave bateu as asas até uma última árvore. 

Esta era a maior de todas e a medida que Adria se aproximava, o tronco parecia inflar. Ao colocar a chave, a casca rugosa imediatamente se abriu em uma porta maior do que ela própria e ali, o que a aguardava era ainda mais impressionante. 

O vão se formava em paredes, o musgo também cobria o interior do tronco, mas existiam pequeninas luzes por toda a parte. Estrelas cintilando em um céu de espuma esmeralda. Bem no centro, o brilho iluminava um confortável leito. A cabeceira possuía arabescos de ferro e um colchão recheado de plumas e lençóis macios lhe aguardava para passar a noite. 

Adria piscou as pálpebras ainda sem saber se tudo aquilo desaparecia a qualquer momento. Juntando as sobrancelhas, deu alguns passos para trás e circulou a árvore pelo lado de fora. Era um tronco robusto, mas não grande o suficiente para uma cama, ainda assim, de volta à abertura, ela decidiu deixar as dúvidas para um outro momento e se embrenhou árvore adentro. 

Do interior, o cômodo era ainda mais impressionante. Ela tocou levemente um dos focos de luz e este se fixou em seu dedo, uma pequena chama fria jorrando luminosidade diante de seus olhos. O lampejo, não apreciando ser perturbado, se colocou pelo ar e retornou ao local de origem. Atrás de si, a porta se fechou e Adria se deitou na cama. As luzes se apagaram, ou foram apenas suas pálpebras se juntando pois seu corpo, embalado por uma espessa nuvem, em segundos dormia um pesado sono.

Na manhã seguinte, a garota abriu os olhos para se encontrar ainda entre os lençóis no interior da árvore, a porta se abria em uma fresta e uma nesga de luz dourada penetrava em seu aposento. Adria se espreguiçou e sorriu consigo mesma, ela poderia se acostumar a viver ali. 

Do lado de fora, a pomba lhe aguardava. “Bom dia dama, agora você tem as três chaves da floresta. Use a primeira quando tiver fome, a segunda para roupas limpas e a terceira para descansar. O bosque vai lhe dar todo o necessário.”  

Adria se aproximou e estendeu a mão, a pomba pousou em seu dedo indicador. “Como posso agradecer?”, perguntou encarando os pequeninos olhos do animal. 

“Me faça companhia, há anos não tenho ninguém para conversar.” 

“Mas você tem belas asas, pode voar para onde quiser e encontrar alguém mais interessante do que eu.” Pressionou as lábios. “Uma servente fugindo de bandidos.” 

“Eu e você somos muito parecidos, buscamos apenas sobreviver mais um dia. Você não conhece minhas prisões e neste momento, nem deve saber sobre elas, mas para mim não há ninguém mais fascinante. Gostaria de visitá-la, uma hora ao nascer do sol e uma hora ao pôr do sol, quando me é permitido.”

Adria tombou a cabeça. “Você não é livre?”

“Eu sou mais livre do que as árvores.”

“Quem o mantém prisioneiro?” 

Diante da pergunta, o pássaro se foi. Ao decorrer do dia, a garota não mais o encontrou e temia tê-lo afugentado para sempre. Quando o sol despencava no horizonte entretanto, lá estava ele, a observando de um dos galhos. Aliviada, Adria se sentou no chão e a pomba se juntou a ela, pousando sobre seus joelhos. Entre as árvores, os dois tiveram uma longa conversa. 

A ave não falou muito sobre si mesma, mas gostava de ouvir. Adria contou sobre seus patrões, sobre a vida sendo uma das servas da baronesa — não era ruim, eles eram pessoas boas, não mereciam ter morrido daquele jeito. Adria era a empregada mais confiada de sua patroa, a mulher até lhe ensinou a ler e a escrever, mas a vida como servente não era a primeira escolha que teria feito para si mesma. Curvando a mão sobre o queixo, a garota suspirou dizendo não haver outra opção, Adria nunca conheceu seus pais e fora criada por uma tia já morta. Não tinha ninguém mais no mundo e quando trabalho honesto foi lhe oferecido no castelo do barão, ela ficou feliz em aceitar.

Após uma hora, a pomba se despediu, mas disse que estaria ali quando ela despertasse e assim foi. Dias se passaram em um sopro e se tornaram semanas. Adria se acostumou a viver na floresta, nunca lhe faltava nada e seus encontros com o pássaro se tornaram o ponto alto de seu dia. Pela manhã, ele lhe contava sobre o sol e ao cair da tarde, sobre as estrelas e suas constelações. Lhe descrevia reinos distantes, um lugar com belos vales, campos verdes e um rei muito justo. Com o tempo, Adria passou a reconhecer algumas expressões de seu amigo. Quando falava sobre este reino, por vezes a ave parava no meio da frase, torcia o pequeno pescoço para baixo e ao erguer novamente o rosto, perguntava mais sobre a infância da garota. Ela pensava em insistir, mas temendo que o pássaro a deixasse, falava algo sobre si mesma. 

Em seus momentos sozinha, a jovem explorava a floresta. Passou a conhecer cada uma das árvores e percebeu que uma destas entidades mudas, se movia. Quando acordava e saia de sua árvore-quarto, um tronco em particular não estava ali, mas horas mais tarde se materializava no mesmo lugar de antes. Era tão estranho, mas ela não ousava perguntar sobre isso para a pomba.

Além de sua árvore-dispensa, Adria descobriu um riacho e dali bebia e por vezes se banhava, mas nunca explorou além das águas. Sua floresta era o suficiente e ela estava tão satisfeita que quase temia deixar seu pequeno reino para trás. 

Um dia, ao final de uma de suas conversas matutinas, o pássaro lhe perguntou. “Minha querida dama, você faria algo por mim?”

“Qualquer coisa.” Adria prontamente respondeu. 

“Existe uma velha nesse bosque, sua choupana fica depois do riacho. Em uma sala, ela guarda dezenas de jóias e entre elas está um anel dourado e sem nenhum adorno. Eu preciso que você me traga este anel.”

Admirada com o pedido, a garota fez um movimento afirmativo com a cabeça. “Eu o trarei a você.”

“Tenha cuidado, ao se deparar com a velha, não troque nenhuma palavra com ela. Simplesmente busque pelo anel e quando encontrá-lo, o traga diretamente para mim. É muito importante seguir essas instruções.”

Adria mal se despediu e foi logo na direção apontada pela ave, procurando pelo casebre da velha. 

Ao atravessar o rio, não demorou para encontrar o local. Era uma casa bem discreta, em uma parte diferente da mata. Aqui, as árvores eram menores, arbustos cresciam e podia-se ouvir diversos animais em volta. Em sua floresta existia apenas silêncio, como se sob algum tipo de encantamento e o fato nunca foi tão evidente quanto naquele momento.

Ao se aproximar da choupana, Adria encontrou a velha sentada na frente da casa. Ao vê-la a outra sorriu. 

“Bom dia bela dama. Como está nesta manhã?”

Mas Adria, se lembrando das instruções da pomba mordeu os lábios e não respondeu. Simplesmente se colocou dentro da casa da velha, a outra imediatamente protestando a intrusão. 

“Dama, esta é minha casa. Não lhe é permitido entrar!”

O espaço se abria em uma discreta sala junto de uma cozinha e passando os olhos rapidamente, Adria não viu nenhuma joia. A velha a seguiu e insistia em dizer que ela não era bem vinda ali, mas Adria não deu ouvidos e se manteve calada. No fundo, distinguiu uma porta e entrou. Neste cômodo, se deparou com uma mesa repleta de jóias e com o coração se acelerando, começou a procurar pelo anel sem adornos. 

Haviam colares, brincos, grandes anéis repletos de pedras preciosas, mas nenhuma aliança apenas de ouro, sem um rubi, uma pérola ou uma esmeralda. Soltando o ar pelas narinas, Adria pensou em desistir quando notou como a velha não a seguiu neste cômodo. A garota suspeitou algo de errado, pois a velha de imediato se opôs à intrusão. Voltando até a sala, percebeu a outra não estar ali e seguindo para fora, Adria a viu — fugindo com uma grande gaiola dourada na mão. Dentro da gaiola existia uma pomba quase idêntica a sua amiga, mas não era a mesma, a jovem soube de imediato. Este pássaro entretanto, carregava em seu bico um anel, o anel sem adornos procurado por ela. 

Sem pestanejar, ela alcançou a velha e visto a resistência da outra, bruscamente arrancou a gaiola de suas mãos. Abrindo a porta, Adria fisgou o anel no bico do pássaro e deixando ambas a pomba e a velha, saiu dali o mais rápido possível. 

Ela estava sem ar quando atingiu sua floresta, a mesma mudez caia sobre as árvores e nada parecia diferente. Procurou pela pomba, mas não encontrando, decidiu recobrar o fôlego e se reclinou em uma das árvores, aquela que por vezes desaparecia.

Quando apoiou as costas contra o tronco, algo estranho aconteceu. Os galhos da árvore a circundaram, a abraçando, mas em um piscar de olhos desapareceram e deram lugar a braços — braços humanos. Girando o pescoço e se desvencilhando assustada, Adria se deparou com um homem.

Ele era alto, jovem, vestia uma especie de uniforme com brocados dourados e possuía um belo par de olhos negros que se abriam para os dela, a madrugada mergulhada em uma piscina e refletindo solitária em meio ao bosque. Encarando-a, seus lábios se esticaram em um grande sorriso. “Você achou meu anel.”

A boca de Adria por um momento pendeu no queixo e depois de alguns instantes percebeu, aqueles olhos — ela os conhecia. “Minha amiga pomba?”, disse sem acreditar em suas próprias palavras.

“Você me salvou, Adria. A mim e aos meus cavaleiros.”

Dito isso, a garota percebeu as árvores em volta, uma a uma, desaparecerem. Algumas se tornavam homens, cavaleiros, outras objetos. Sua árvore-quarto se transformou em uma grande carruagem, a árvore-armário, em um baú. Haviam caixotes, sacolas e também animais, cavalos equipados com selas. Todos retornando a sua forma original. 

“A velha no boque era na verdade uma bruxa.” Aquele que antes era uma ave continuou. “Eu e meus cavaleiros passávamos por estas terras quando ela nos abordou. Ao falarmos com ela, a velha nos transformou em árvores. Ela tem poder sobre as palavras, por isso quando você a ignorou, ela não pode usar sua magia. Infelizmente quando a encontramos não sabíamos disso. A mim, por ser o líder da comitiva e seu príncipe, foi dada a regalia de me transformar em uma pomba por algumas horas, mas pelo resto do dia eu também era aprisionado na forma de uma árvore. Me trazendo o anel enfeitiçado, você nos salvou. Devemos tudo a você.” 

Em volta, os cavaleiros celebravam, homens novamente com seus membros moveis, suas vozes em risos. Alguns se abraçaram reconhecendo velhos amigos, outros buscavam por seus cavalos, também aliviados em terem de volta seus animais. A floresta foi inundada por sons, cantos, e harmonia. 

Vendo a alegria em volta de si, Adria foi tomada pela mesma euforia, seus lábios se elevaram, suas órbitas se alargaram cintilando. Mas logo a garota se deu conta de sua floresta não existir mais, e sua pomba — o amigo que durante semanas se tornou tão próximo dela, também não. 

Ela voltou o olhar ao príncipe, ele era muito bonito, com seus ombros largos e sorriso franco. Adria quase via um pouco de sua querida pomba ali, mas ele era realeza, e ela, apenas uma garota que não tinha para onde ir.

Percebendo a luz se apagar em seu rosto, o príncipe se aproximou mais. “Obrigada Adria”, disse buscando por suas mãos. “Para sempre seremos gratos a você. Talvez —”, pressionou os lábios. “Gostaria de ir — comigo, até meu reino?”  

“Até seu reino?” Apesar do toque morno do príncipe, ela desvencilhou suas mãos. “E então? Ser uma serva?”

Ele juntou levemente as sobrancelhas. “Não. Adria, você me salvou, salvou meus homens. Não olhe para mim como se eu fosse um estranho”, disse buscando por seu rosto. “Conhecê-la foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Para você eu era apenas uma pomba encantada, mas para mim — eu me apaixonei por você.”

A garota continuou a encará-lo sem dizer nada. Amor? Era isso que ela também sentia pela pomba ao aguardá-la todas as manhãs? Ao dividir os anseios mais íntimos dentro dela? Mas Adria compartilhou seus pensamentos nunca imaginando que a pomba poderia se transformar em um homem. Um príncipe, apaixonado por ela?

“Eu queria trazê-la de volta ao meu reino”, continuou ele. “Pois tinha esperanças de que aceitasse — se casar — ” Escaneou o chão por alguns instantes e depois encontrou seus olhos, as bochechas enrubescendo. “Comigo.”       

“Casar?” 

“Eu sei, é uma ideia absurda.” O príncipe balançou a cabeça. “Me desculpe. Acho que você sempre vai me ver como uma animal de penas.”

Ouvindo sua voz com atenção, Adria percebeu que ainda existia muito de seu amigo ali. E agora, a maneira como suas bochechas coravam ao falar em casamento, fazia uma pequena faísca acender dentro dela. 

“Não. É claro que eu não o vejo como de um animal de penas.” Ela quase sorriu. “Antes eu o via como um amigo, minha melhor companhia. E agora —” 

“Agora?” Suas sobrancelhas se ergueram. 

“Eu aceito. Eu quero me casar com você.”

O príncipe se aproximou e levando as mãos em seu rosto, juntou os lábios nos dela. Foi um beijo terno, com cheiro verde de mata e a maciez e frescura da água. As pequenas faíscas dentro de Adria se tornaram uma grande explosão de brilho no céu da noite e ela pensou a forma de homem ser muito melhor para seu noivo, do que a forma de ave.   

Junto da comitiva, Adria e o príncipe voltaram para o reino governado pelo pai de seu amado. Houve uma grande festa para recebê-los e após anos, com a morte do rei, eles governaram lado a lado. Sempre justos e bondosos. Até o fim de seus dias, viveram felizes para sempre.


Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

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